
Os dias nascem e morrem solarengos e amistosos.
Após um ano de euforias sem compassos para reflexões sobre o que a rodeava e a forma como rodeava os outros, chega espontânea e calorosamente o Verão, que religiosamente a senta de pernas cruzadas, sob um rabiscar de uma data de frases sem sentido aparente, apenas com o pretexto de relembrar o enquadramento da esferográfica com a sua mão.
Enquanto repara em certos pormenores do ambiente que a envolve, que ela própria concebeu e ao qual chamou lar, pensa nos inúmeros detalhes que lhe escaparam durante meses, meses dos quais não fizeram parte momentos como este, instantes unicamente seus, do seu sofá e dos seus papéis.
Teriam sido essas outrora insignificâncias a alterar o rumo da sua vida? Perdera o namorado, perdera a melhor amiga, afastara-se de pessoas que se tinham tornado indispensáveis e de companheiros de infância. Chegara mesmo a sentir-se perdida, desamparada, e a encontrar o alento necessário apenas na solidão da sua casa.
Chorara o suficiente para causar um dilúvio, no entanto não percebia o porquê: porquê que ele se desprendera dela de uma forma tão simples e eficaz que chega a ser dolorosa? O que teria acontecido à perfeição que ela julgava ambos terem construído?
Ela amava-o, como nunca amara ninguém. Ele magoou-a, como nunca ninguém a tinha magoado. E ele, teria a amado?
E aquela a quem orgulhosamente considerara senhora absoluta dos seus dias? O que lhe teria acontecido a ela, à amizade delas, às profecias de um futuro em conjunto, aos sonhos de duas inconscientes conscientemente embevecidas uma pela outra?
Tal qual uma erupção vulcânica, uma avalancha ou um terramoto, estas catástrofes, naturais ou não, assolavam-lhe o pensamento. Como sentira a sua falta! Como sabia que nunca abdicaria de nenhum dos dois!
Porém, a melancolia das recordações não a levaria ao porto seguro ao qual se acostumara, ela sabia isso. Contudo, a sua destroçada presença desconhecia que viria a surgir um barco, puxado pela força dos braços de outrém, que a conduziria até esse porto, e levaria as memórias para longe.
Que continuemos a velejar.
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