sábado, 21 de agosto de 2010

Foronomia

Penetraram no terreno baldio que rodeava a imponente casa de fachada branca. Apesar dos longos duzentos anos de história, nada no seu exterior transparecia desleixo ou descuidado. Tinha pertencido aos antepassados dele, e o facto de ele partilhar aquele espaço com ela, fazia com que se sentisse especial.

Subiram as escadas principais e estacaram, defronte para uma vista deslumbrante, onde as margens eram discretamente banhadas pelo rio. Entreolharam-se e sorriram.

Ele gentilmente abriu a ilustre porta que dava acesso a uma ampla divisão. Entraram e ela observou com uma certa curiosidade e desconfiança divertida no olhar o único objecto ali presente, um sofá. Ele, apercebendo-se e como que adivinhando os seus pensamentos, soltou uma inocente risada.

Havia passado quase duas semanas que não se viam, e como ela sentira a sua falta! Abraçou-o. Abraçou-o como se fosse a última vez. Ele retribuiu-lhe com uma expressão de compreensão no rosto.

Deitados, sentindo o toque das palmas das mãos um do outro, ela imaginou aquele edifício sumptuoso, agora abandonado, como sendo seu. Partilharia-o com o fantástico ser que estava ao seu lado, remodelaria-o com todo o amor, dedicação e originalidade, e nele construiriam uma família perfeita, com os seus numerosos filhos a correrem pelas inúmeras salas e quartos.

Perdida em pensamentos, sentiu os músculos do seu ventre palpitarem repentinamente, quando a sua boca foi tomada de assalto.

Os seus lábios fundiram-se numa urgência incontrolável. Conseguia sentir as ondas de força contidas na língua dele, misturadas com uma suavidade que lhe provocava o desejo de mais, uma avidez tal que, desconcertadamente envolvia o seu corpo no dele.

Ele soergueu o corpo dela e num ápice despiu-a, de roupa e de pensamentos. Ao contrário do seu corpo, o cérebro dela estagnou apenas no foco de tensão que ali formavam, abandonando imagens de um possível futuro como dona de casa, letras de músicas que o seu inconsciente cantarolava e até mesmo a paisagem que os aguardava do lado de fora. Os seus lábios tocavam-se frequentemente, abafando a respiração ofegante, entre avanços e recuos. Nada mais interessava além daquele ataque súbito de desejo.

Prendeu os dedos entre o seu cabelo e manobrou a cabeça dele, dando-lhe a sentir o seu poder animalesco. Ele era seu. E ela era dele. Algo insaciável pulsava dentro dos dois. Amavam-se.

Ambos tremiam ao ritmo de um compasso ora lento, ora febril. Ela devorou-o e depois provou-o. Ele soltou um gemido rouco quando as unhas dela selvaticamente lhe arrancaram pele, fazendo-lhe ferver o sangue.

Havia tanto dele e ela, naquele instante, queria tudo!

Ele apertou-a contra si enquanto rebolavam do sofá para o chão, e vice-versa. A pele dos dois estava quente, húmida e pronta.

Ela arqueou o corpo sob o dele e, suave e freneticamente, ficaram unidos pelos lábios, pelas mãos e pelos ventres, num prazer que os atormentava.

Renderam-se e desfaleceram nos braços um do outro.

"Para a semana, casas comigo?".

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Sexta-feira, meia noite e uma varanda


Os dias nascem e morrem solarengos e amistosos.

Após um ano de euforias sem compassos para reflexões sobre o que a rodeava e a forma como rodeava os outros, chega espontânea e calorosamente o Verão, que religiosamente a senta de pernas cruzadas, sob um rabiscar de uma data de frases sem sentido aparente, apenas com o pretexto de relembrar o enquadramento da esferográfica com a sua mão.

Enquanto repara em certos pormenores do ambiente que a envolve, que ela própria concebeu e ao qual chamou lar, pensa nos inúmeros detalhes que lhe escaparam durante meses, meses dos quais não fizeram parte momentos como este, instantes unicamente seus, do seu sofá e dos seus papéis.

Teriam sido essas outrora insignificâncias a alterar o rumo da sua vida? Perdera o namorado, perdera a melhor amiga, afastara-se de pessoas que se tinham tornado indispensáveis e de companheiros de infância. Chegara mesmo a sentir-se perdida, desamparada, e a encontrar o alento necessário apenas na solidão da sua casa.

Chorara o suficiente para causar um dilúvio, no entanto não percebia o porquê: porquê que ele se desprendera dela de uma forma tão simples e eficaz que chega a ser dolorosa? O que teria acontecido à perfeição que ela julgava ambos terem construído?

Ela amava-o, como nunca amara ninguém. Ele magoou-a, como nunca ninguém a tinha magoado. E ele, teria a amado?

E aquela a quem orgulhosamente considerara senhora absoluta dos seus dias? O que lhe teria acontecido a ela, à amizade delas, às profecias de um futuro em conjunto, aos sonhos de duas inconscientes conscientemente embevecidas uma pela outra?

Tal qual uma erupção vulcânica, uma avalancha ou um terramoto, estas catástrofes, naturais ou não, assolavam-lhe o pensamento. Como sentira a sua falta! Como sabia que nunca abdicaria de nenhum dos dois!

Porém, a melancolia das recordações não a levaria ao porto seguro ao qual se acostumara, ela sabia isso. Contudo, a sua destroçada presença desconhecia que viria a surgir um barco, puxado pela força dos braços de outrém, que a conduziria até esse porto, e levaria as memórias para longe.

Que continuemos a velejar.