quarta-feira, 17 de novembro de 2010

A Paixão


Ela adorava recostar-se sobre as almofadas já amolgadas e fitá-lo, apenas observá-lo enquanto ele dormitava. Ver o seu peito num sobe-e-desce constante e compassado, graças à sua respiração tranquila e doce; reparar no seu leve pestanejar e nos movimentos trémulos dos seus lábios. Era capaz de passar horas naquela mesma posição.
Enrolou os seus dedos nos encaracolados fios de cabelo dele, de uma forma tão suave, mas outrora tão abrupta, que os fazia arfar em uníssono. Sabia aquele cabelo de cor, inalava o seu cheiro como se aquele odor fosse elixir de vida para ela. E talvez fosse!
Cada segundo perto dele, por muito fugaz, fazia galopar o sentimento dentro dela; o gosto da língua dele permanecia nas suas papilas gustativas, mesmo quando ele já longe ia. Como ela gostaria de ter um bolso para lá o guardar!
Um ataque de inocência vergastou o seu pensamento. Eram duas criaturas com meia dúzia de anos prementes vividos e, no entanto, ali estavam, lado a lado, cedendo tudo um ao outro, dando uma espécie de nó, tenso, resistente e inexplicavelmente experiente. Eram dois seres que, apesar da tenra idade, sabiam que não faziam promessas vãs, que já não davam provas de audácia "subindo eucaliptos". Eram duas crianças que apenas sonhavam ficar juntas.
Baixinho, ela sussurrou que o amava. Num gesto puro, o braço dele envolveu-a, num mundo só deles.
"O prometido é devido", e ela um dia prometeu que seria para sempre, porque "muito mais é o que nos une que aquilo que nos separa".

ps: obrigada Rui Veloso pela noite fantástica.