sábado, 28 de maio de 2011

Culinárias

Confirma-se quando dizem que ninguém sabe amar até o experimentar. Eu tenho vindo a provar de tal ementa e aconselho: é nutritiva, vitamínica, alimenta corpo e alma, e sobretudo, faz crescer (e muito).
O sabor inicialmente é doce, por vezes um pouco salgado. Chega a ter uma ponta de pimenta. Tem alturas que não deixa de ser ácido, e outras, raras, azedo. Mas sempre disseram que o que alguma vez foi doce, nunca amargou. Intenso.
Deve ingerir-se em doses diárias incontroladas, pois ninguém irá sofrer de ingestões se algum dia abusar (e isso sim, recomenda-se).
Não existe nenhum livro de receitas, nem nenhum sábio chefe de cozinha que saiba explicar tal mistério.

Também se confirma que não sou grande cozinheira, mas no que toca a esta receita...

Para o meu ingrediente predilecto,
Peter Pan.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

"O quê que eu ia a escrever mesmo?"


Vi-te adormecer no meu ombro. Mais uma vez.
Desta vez limitei-me a olhar para ti da forma que o ângulo me permitia; vislumbrar cada traço do teu rosto, cada fio de cabelo teu. Semi-cerrei os olhos, como que a conter qualquer emoção, para não te acordar. Meu belo adormecido.
Desviei o olhar para a vidraça que me acompanhava do lado direito e pensei: como é possível amar tanto alguém? Melhor, como é possível sentir que alguma vez poderia vir a ser tão amada?

Amor. Amante. Amatório. Amativo. Amar.
Ele diz que me ama. Eu digo-lhe que o amo; se for preciso, mil vezes por dia. Ou até só uma. Mais que lhe dizer, ele sabe. Temos um pacto. Não de sangue, nem de nada que se possa ver ou tocar. É um pacto silencioso, que tem a capacidade de tornar as nossas vidas enraizadas uma na outra, um pacto de eternidade.
Ele faz-me sentir amada, e tudo isso é encontrar um ponto de abrigo na presença dele, ter uma sensação de protecção quando me aninho nele, saber que todos os dias ele está lá a zelar pela minha felicidade, com o que pode e com o que não pode; é ver que ele me põe a cabeça no lugar quando estou a delirar, é reparar que ele se lembra de tudo o que conto, mesmo que tenha sido há duas semanas atrás, é sentir um aperto no peito a cada despedida. É ver o sorriso dele quando chamo o seu nome, é inspirar fundo para sentir o cheiro dele, é estar aconchegada quando ele me arranja os cobertores para não ter frio, é sentir-me o mundinho dele, quando ele me observa enquanto durmo. É saber que daqui a vinte, trinta, ou cem anos, vou amá-lo com a mesma intensidade que amo hoje.

Estou agarrada a ti, não com uma, mas com as duas mãos.

diz que me amas, mas a berrar”.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

A Paixão


Ela adorava recostar-se sobre as almofadas já amolgadas e fitá-lo, apenas observá-lo enquanto ele dormitava. Ver o seu peito num sobe-e-desce constante e compassado, graças à sua respiração tranquila e doce; reparar no seu leve pestanejar e nos movimentos trémulos dos seus lábios. Era capaz de passar horas naquela mesma posição.
Enrolou os seus dedos nos encaracolados fios de cabelo dele, de uma forma tão suave, mas outrora tão abrupta, que os fazia arfar em uníssono. Sabia aquele cabelo de cor, inalava o seu cheiro como se aquele odor fosse elixir de vida para ela. E talvez fosse!
Cada segundo perto dele, por muito fugaz, fazia galopar o sentimento dentro dela; o gosto da língua dele permanecia nas suas papilas gustativas, mesmo quando ele já longe ia. Como ela gostaria de ter um bolso para lá o guardar!
Um ataque de inocência vergastou o seu pensamento. Eram duas criaturas com meia dúzia de anos prementes vividos e, no entanto, ali estavam, lado a lado, cedendo tudo um ao outro, dando uma espécie de nó, tenso, resistente e inexplicavelmente experiente. Eram dois seres que, apesar da tenra idade, sabiam que não faziam promessas vãs, que já não davam provas de audácia "subindo eucaliptos". Eram duas crianças que apenas sonhavam ficar juntas.
Baixinho, ela sussurrou que o amava. Num gesto puro, o braço dele envolveu-a, num mundo só deles.
"O prometido é devido", e ela um dia prometeu que seria para sempre, porque "muito mais é o que nos une que aquilo que nos separa".

ps: obrigada Rui Veloso pela noite fantástica.

sábado, 21 de agosto de 2010

Foronomia

Penetraram no terreno baldio que rodeava a imponente casa de fachada branca. Apesar dos longos duzentos anos de história, nada no seu exterior transparecia desleixo ou descuidado. Tinha pertencido aos antepassados dele, e o facto de ele partilhar aquele espaço com ela, fazia com que se sentisse especial.

Subiram as escadas principais e estacaram, defronte para uma vista deslumbrante, onde as margens eram discretamente banhadas pelo rio. Entreolharam-se e sorriram.

Ele gentilmente abriu a ilustre porta que dava acesso a uma ampla divisão. Entraram e ela observou com uma certa curiosidade e desconfiança divertida no olhar o único objecto ali presente, um sofá. Ele, apercebendo-se e como que adivinhando os seus pensamentos, soltou uma inocente risada.

Havia passado quase duas semanas que não se viam, e como ela sentira a sua falta! Abraçou-o. Abraçou-o como se fosse a última vez. Ele retribuiu-lhe com uma expressão de compreensão no rosto.

Deitados, sentindo o toque das palmas das mãos um do outro, ela imaginou aquele edifício sumptuoso, agora abandonado, como sendo seu. Partilharia-o com o fantástico ser que estava ao seu lado, remodelaria-o com todo o amor, dedicação e originalidade, e nele construiriam uma família perfeita, com os seus numerosos filhos a correrem pelas inúmeras salas e quartos.

Perdida em pensamentos, sentiu os músculos do seu ventre palpitarem repentinamente, quando a sua boca foi tomada de assalto.

Os seus lábios fundiram-se numa urgência incontrolável. Conseguia sentir as ondas de força contidas na língua dele, misturadas com uma suavidade que lhe provocava o desejo de mais, uma avidez tal que, desconcertadamente envolvia o seu corpo no dele.

Ele soergueu o corpo dela e num ápice despiu-a, de roupa e de pensamentos. Ao contrário do seu corpo, o cérebro dela estagnou apenas no foco de tensão que ali formavam, abandonando imagens de um possível futuro como dona de casa, letras de músicas que o seu inconsciente cantarolava e até mesmo a paisagem que os aguardava do lado de fora. Os seus lábios tocavam-se frequentemente, abafando a respiração ofegante, entre avanços e recuos. Nada mais interessava além daquele ataque súbito de desejo.

Prendeu os dedos entre o seu cabelo e manobrou a cabeça dele, dando-lhe a sentir o seu poder animalesco. Ele era seu. E ela era dele. Algo insaciável pulsava dentro dos dois. Amavam-se.

Ambos tremiam ao ritmo de um compasso ora lento, ora febril. Ela devorou-o e depois provou-o. Ele soltou um gemido rouco quando as unhas dela selvaticamente lhe arrancaram pele, fazendo-lhe ferver o sangue.

Havia tanto dele e ela, naquele instante, queria tudo!

Ele apertou-a contra si enquanto rebolavam do sofá para o chão, e vice-versa. A pele dos dois estava quente, húmida e pronta.

Ela arqueou o corpo sob o dele e, suave e freneticamente, ficaram unidos pelos lábios, pelas mãos e pelos ventres, num prazer que os atormentava.

Renderam-se e desfaleceram nos braços um do outro.

"Para a semana, casas comigo?".

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Sexta-feira, meia noite e uma varanda


Os dias nascem e morrem solarengos e amistosos.

Após um ano de euforias sem compassos para reflexões sobre o que a rodeava e a forma como rodeava os outros, chega espontânea e calorosamente o Verão, que religiosamente a senta de pernas cruzadas, sob um rabiscar de uma data de frases sem sentido aparente, apenas com o pretexto de relembrar o enquadramento da esferográfica com a sua mão.

Enquanto repara em certos pormenores do ambiente que a envolve, que ela própria concebeu e ao qual chamou lar, pensa nos inúmeros detalhes que lhe escaparam durante meses, meses dos quais não fizeram parte momentos como este, instantes unicamente seus, do seu sofá e dos seus papéis.

Teriam sido essas outrora insignificâncias a alterar o rumo da sua vida? Perdera o namorado, perdera a melhor amiga, afastara-se de pessoas que se tinham tornado indispensáveis e de companheiros de infância. Chegara mesmo a sentir-se perdida, desamparada, e a encontrar o alento necessário apenas na solidão da sua casa.

Chorara o suficiente para causar um dilúvio, no entanto não percebia o porquê: porquê que ele se desprendera dela de uma forma tão simples e eficaz que chega a ser dolorosa? O que teria acontecido à perfeição que ela julgava ambos terem construído?

Ela amava-o, como nunca amara ninguém. Ele magoou-a, como nunca ninguém a tinha magoado. E ele, teria a amado?

E aquela a quem orgulhosamente considerara senhora absoluta dos seus dias? O que lhe teria acontecido a ela, à amizade delas, às profecias de um futuro em conjunto, aos sonhos de duas inconscientes conscientemente embevecidas uma pela outra?

Tal qual uma erupção vulcânica, uma avalancha ou um terramoto, estas catástrofes, naturais ou não, assolavam-lhe o pensamento. Como sentira a sua falta! Como sabia que nunca abdicaria de nenhum dos dois!

Porém, a melancolia das recordações não a levaria ao porto seguro ao qual se acostumara, ela sabia isso. Contudo, a sua destroçada presença desconhecia que viria a surgir um barco, puxado pela força dos braços de outrém, que a conduziria até esse porto, e levaria as memórias para longe.

Que continuemos a velejar.